sábado, 5 de dezembro de 2009

O Chato

Não dá para ser inteligente o tempo inteiro e só falar coisas sábias e acertadas, não dá! A gente sempre solta uma bobagem, uma frase impensada, um erro bobo de Português... que infelizmente são captados e registrados pela mente policial de algum chato de plantão!!! PEL'AMOR-DE-DEUS!!!
Como toda pessoa que fala demais, eu também acabo dizendo muitas bobagens e para piorar, tenho uma mente meio fantasiosa: como AMO ler desde pequena, para mim, os cenários e personagens literários, são muito reais, muitos presentes. Mesmo os autores já falecidos, estão ali do meu lado, narrando os fatos enquanto leio. Estão vivos no meu coração, sabe? Bom, foi assim que aconteceu...
- Nossa, eu adoro o jeito que o Jorge Amado escreve...
- Peraí, ESCREVE???!!- ironiza o chato - Ele já morreu, não sabia não???
-Eu sei, eu sei... quer dizer, para mim, cada vez que leio "Capitães da Areia" ele está lá: Vivinho da Silva, contando a estória!!!
- Ha-ha! Sei...- o chato ri com maldade.
- Bom, acho que talvez exista um feitiço, uma macumba... sei lá, um ritual na Academia Brasileira de Letras, quando o camarada é admitido lá ele REALMENTE se torna um Imortal, saca?
- Hahhahahaha!!! Nossa, você viajou agora, hein?! Afe... e o Paulo Coelho??? Se até ele entrou para a ABL... - chateia o chato.
- O Paulo Coelho é uma assombração, um Exu-tranca-rua!- respondo indignada- Não vale!! Ele está lá só para atormentar as pobres almas...envergonhar os grandes nomes da nossa Literatura!!!
- Caiu muito muito essa Academia, viu? Que nem o país... e pensar que o Machado foi...
- Nossa! O Machado de Assis é foda! Aquele rancor do Bentinho, todo o processo de remoer as próprias suspeitas enquanto narra a história.. é doentio! É genial!!!
- É, tem um crítico que defendeu na tese del...
- Nossa!- interrompo o chato, antes que ele recomece - Para mim, é Deus no Céu e Machado na Terra!!!
O chato me olha com um desprezo de gelar o coração.
- Quer dizer... não mais, agora ele está no Céu também, porque ele já morreu, né?- me corrijo, totalmente sem-graça.
- Ou no Inferno, certo? Com aquelas ironias...
Arremata o chato, porque ele sempre será chato e como tal, tem que dar a palavra final.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Me ajudem:

Estou parindo os textos, quase sempre, aos pares... e não tenho condição de julgar ainda, se esses pedaços pulsantes da minha carne são bons ou ruins. São minha carne.

Crônica: Sobre a dificuldade de ser simples.

Fui ler a crônica " O Ovo e a Galinha" de Clarice Lispector, após assistir no Youtube à sua ùltima entrevista, em 1977, pouco antes de sua morte. O que me levou a procurar esse texto foi o fato de Clarice comentar que ela mesma não o entendia e aí, é claro, despertou minha curiosidade.
É um texto longuíssimo, sobre o ovo. E sobre a galinha. E sobre o Universo inteiro e todas as coisas nele, nas relações mais complexas, amalucadas e impossíveis. Tudo para quê? Para, na minha presunçosa opinião, mostrar a dificuldade de ser simples, simples como um ovo. Porque, a partir do momento em que você se preocupa em definir a simplicidade, já complicou as coisas e o sentido se perdeu. O simples se perdeu, porque a explicação o tornou complicado, atribuindo a ele sentidos que não lhe são próprios.
Acho que a beleza de Clarice Lispector é ter esses rasgos de genialidade e ironia, fisgar irresistivelmente seus leitores criando uma aura de mistério a ser explorada. Despertou a curiosidade acerca do ovo e a galinha para explicar o simples, complicando muito para demonstrar o quão desnecessária é a masturbação mental. Tanto que nem li o texto inteiro, fui pulando uns pedaços... enfim, até a estética de um ovo é simples. Para quê me complicar em mais explicações e deturpar a ideia inicial? Termino aqui.

Crônica: A Princesa e a Ervilha

Estava com a minha amiga S.V. no telefone e surgiu essa imagem na minha cabeça para explicar como eu via a situação dela: "A Princesa e a Ervilha".
Toda noite quando deita na escuridão, isolada no seu quarto, seu íntimo fica mais íntimo, a ponto de intimidar você: é inevitável fugir das pequenas e grandes questões que a incomodam.
Está deitada no aconchego da cama macia, mas aquele problema embaixo do seu colchão lhe incomoda, não a deixa dormir. Vira-se para o lado da porta, em busca de uma solução. A ervilha cutuca então um ponto dolorido do seu âmago. Vira-se então para a parede, para ignorar o probleminha chato e enfim, encontrar o sono. Sementinha torturantemente filha-da-puta e verde! Não deixa você dormir!!! Deve ser alérgica a ervilhas, porque agora, está até com dor de cabeça... (eu sempre achei que ervilha tinha gosto de coisa velha, principalmente as enlatadas. Por isso, minha amiga, nunca como essa coisa verde-nojentinha!)
Então, decidida, vira de barriga para cima, disposta a lutar incansavelmente pelo seu direito de descansar em paz. De não pensar mais. E fica difícil até de respirar, porque nessa posição... dá... falta... de... ar... e ainda pode ver as sombras dos seus problemas se esgueirando pelo teto, rastejando da luz que penetra da janela até você!
Finalmente, você dorme. Depois de muito se enroscar e tropeçar em travesseiros e lençóis. E,literalmente, num piscar de olhos, você acorda: a luz do dia seguinte cegando seus pensamentos como um flash. Naquele sonambulismo de quem teve uma noite mal-dormida, enfrenta suas tarefas diárias, automaticamente. E não decide nada. Ou se decide alguma coisa, isso não a contenta realmente. Não faz você feliz. É porque não acordou ainda.
Acorde. Sonhe o que quer para si. Sonhe profundamente, olhe para dentro dos seus olhos e veja: veja o que eles vêem no futuro. Acorde para esse dia seguinte. Desabrochando no seu jardim, exalando o perfume das pétalas do seu coração que se abrem sem medo do mundo. Você é mágica, perfeita nas singularidades dos seus pequenos defeitos. Espalhe no ar seu pólen, seu frescor. Você é linda, você é flor sim. Mas é planta que não pode ser cultivada num vaso. Seu adubo é liberdade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Trova dos 3 Reis

Nas cálidas colinas suaves
Como contornos de mulher
O primeiro, que tinha nome de rei,
Semeou campos de poemas
E partiu para ganhar o mundo
Com seus sonhos e sua música

As colinas suaves desabrocharam
E o vento exalava um hálito de mulher
O segundo também tinha nome de rei
Mas, era um Barba Azul¹, pisou as rosas
E partiu, a deflorar outras terras,
Com sua arrogância e burrice

As colinas suaves sangraram,
Terra repisada de olheiras marrons
O coração mineral revolvido
As entranhas de túmulo, útero vazio
Tempestade intermitente a minar sua força

As colinas suaves e magoadas
Debilmente ao sol secavam
Quando veio o terceiro homem com nome de rei
Este, tinha faces de Cristo e era um sacerdote:
Não operou um milagre, não fez brotar vida naquele chão
Mas arrancou as ervas daninhas daquele ventre e o abençoou
E partiu para uma vida de bondade celibatária.



1) Barba Azul foi como Henrique VIII, rei da Inglaterra, se tornou connhecido.Famoso por ter se casado seis vezes e por exercer o poder mais absoluto entre todos os monarcas ingleses, entre os feitos mais notáveis de seu reinado está a ruptura com a Igreja Católica Romana, e seu estabelecimento como líder da Igreja da Inglaterra (ou Igreja Anglicana), a dissolução dos monastérios, e a união da Inglaterra com Gales.
(Wikipédia)